Enviado por: Daniella Leal

Meu gato dorme no pé da cama toda noite. Às vezes ele vem depois de eu já estar deitada, mas ele sempre vem. Mesmo quando ele não dorme em cima de mim, ele põe uma das patinhas em cima do dedão do meu pé. Não sei se é pra ter certeza que eu estou ali ou pra me avisar que ele está ali e eu ter certeza. Eu sou muito mais triste que meu gato, muito mais carente. Ele deve saber disso. E deve ser por mim. Eu sei que ele não gosta de comer a ração se o fundo do pote está descoberto, então eu acordo cedo e vou lá, coloco três bolinhas de ração e ele sempre fica feliz. Ele sabe que eu não suporto dormir sozinha então ele sempre vem e me faz companhia durante o meu sono. Nós nos entendemos no nosso silêncio. Nas nossas demonstrações ínfimas de amor. E eu descobri que o amor nunca é assim tão óbvio e raramente retorna na forma que ele foi um dia. Eu estava tão presa. Eu achei que aquele era o limite. Eu fui tão imbecil como alguém que pula do céu achando que as nuvens vão segurar seu corpo porque ali parecia o limite. Eu quis encaixar o amor nas curvas que eu já conhecia, no cheiro, nas palavras, principalmente nas palavras, nos lugares comuns, de onde eu sabia ir e voltar. Eu duvidei da minha própria conclusão. Da conclusão mais bonita que já cheguei na vida e tomei o caminho seguro de volta, mesmo sabendo que eu não cabia mais.

Quando você atinge a catarse, e se destrói pela mais bela criação e acredita que o mundo acaba ali, basta um gesto de coragem para pisar adiante e saber que tem sempre uma porta, sempre um precipício com um chão te esperando e que cair é bom. Eu não conheço o nome do que vem depois da catarse e eu jurava que esse ponto tinha me arrebentado em mil pedaços e que nada nunca seria como aquilo de novo. E não vai. Vai ser maior. Vai ser mais distante que o ponto mais distante que os olhos enxergam de um lugar alto. Os mil pedaços se juntaram num universo novo e inteirinho, como um Big Bang particular.

Eu imagino que o universo quando se contraiu até o limite e acreditou que aquela era a dor mais intensa que poderia existir e que diminuiria diminuiria diminuiria até desaparecer seria seu último grande feito, não acreditou quando explodiu e formou todos esses sistemas implanejados, acaso atrás de acaso, que hoje orbitam tranquilamente entre si sem grandes problemas. A coisa mais linda que existe é o pós catarse do universo. Das coisas imensas como as nebulosas, a aurora boreal, os animais selvagens, às ridículas e pequenas, como eu e você.

Como meu gato que sabe que precisa me abraçar.

Quando eu achei que ia desaparecer, você foi meu precipício além do fim do mundo. Minha pós catarse. O amor além do amor que não acreditava que existia, mas existe.

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