Cores de um dia nublado

Enviado por: Fernanda Iglesias

Agitações no corpo e intensa respiração. Quase sempre um sotaque em espanhol saindo da caixa de som e, vozes, de Colômbia à Sevilla, ecoando pela casa.
Esse, tradicionalmente, é o prenúncio de que a escrita há de se escrever nesse meu corpo.
Assim, despretensiosa e febril, vai chegando em fortes doses. Infringe os planos do dia, dribla o sono e ganha formas na música, nos desenhos e no céu. Convoca a uma espécie de dança desajeitada, um corpo que não sabe exatamente o que pode fazer, mas encontra pistas nas simples coisas.
Sem pedir licença, se torna a mais potente das faltas de educação.
Então, acordes viram asas,
vozes tocam a pele,
palavras escorrem pelos olhos
e um arrepio não é mais um arrepio.
Longe das profundezas do ser, tudo aqui se passa no terreno da pele.
O mesmo corpo que sentira falta de ar, respira por cada poro, todo ele.
Eu, que já não sou uma,
sou a América Latina
sou a voz da Espanha
e os quadris de Alexandria.
Como num súbito voo, chego na janela e vejo o tímido arco-íris.
Na incerteza do que foi este dia, tenho as menores e mais desimportantes das sensações:
que desse mesmo corpo outro corpo veio a ser,
que num mesmo gesto de escrita, outra se escreveu
e que, nessa arrebatadora experiência de acessar as simples coisas, nova vida insistiu em nascer, enchendo de cores o que tinha de mais acinzentado.

 

 

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